Be Kind | Pai & Filho -Relato #1

Be Kind | Pai & Filho -Relato #1

De forma a quebrar um pouco as ondas de estúpidez, egoísmo, ignorância e intolerância agudas que vejo por essas redes sociais fora (aka secção de comentários dos jornais portugueses, por exemplo), e das demonstrações de indiferença perante situações que apelam à nossa sensibilidade enquanto seres humanos, dei por mim a pensar que seria bom ir escrevendo aqui algumas coisas boas que ainda vejo as pessoas fazerem. Seja comigo diretamente, ou mesmo como mera observadora.

E digo fazer na vida real.

Pôr a mão na massa.

Não só falar.

 

 

Vou começar com um exemplo que tenho o privilégio de assistir todos os dias a caminho do trabalho.

Há cerca de dois anos que presencio esta cena e hoje, especialmente, fiquei atenta à forma como os 10 minutos que partilhamos no mesmo transporte se desenrolam.

Todas as manhãs, à mesma hora, entro no metro com um senhor que se faz acompanhar do filho que, presumo, ter cerca de 14 anos e aparenta ter alguma doença/transtorno do foro mental/psicológico.

Por esta mesma condição, anda sempre acompanhado do pai que todos os dias, apanha um metro lotado de gente e se desfaz em desculpas após o filho empurrar toda e qualquer pessoa para se sentar, caso veja um lugar vago. A maior parte das pessoas não dá importância à situação e tem sempre um sorriso compreensivo pronto a apresentar aquele pai tão gentil.

Hoje, ia eu sentada e o rapaz  começa a sua corrida para se sentar no lugar ao lado do meu. Prontamente cedi o meu lugar ao pai, que me agradece com o mesmo olhar simpático de quem também já me conhece e sabe que sei que o filho precisa de estar ao pé dele.

Como disse acima, hoje fiquei atenta aquela interação pouco comum, pois o David não fala com o pai nem olha muito para ele. Para dizer a verdade, ele foca apenas algumas coisas, nomeadamente os lugares vazios, ou qualquer outra coisa que lhe chame mesmo a atenção.

Vi então que o senhor saca de um bloco de notas e de um lápis para começar a fazer alguns desenhos que a minha ignorância não permitiu entender. Entendi apenas que, aqueles desenhos, eram uma forma de ambos comunicarem. Uma forma de o pai mostrar-lhe o que era certo e o que era errado (foi a única coisa que consegui captar).

Depois desses desenhos, vejo desenvolver-se um retrato (bastante bem desenhado, por sinal) do perfil do David e um esgar sair da cara do próprio ao vê-lo. O pai sorri e começa a arrumar as coisas para saírem.

Vi hoje que o David leva ao peito o seu nome, e notei algum reconhecimento no seu olhar quando abri porta para podermos sair do metro.

Quando os vi pela primeira vez, o rapaz era bem mais pequeno fisicamente e agora está maior que pai. O que me leva a pensar que, cada vez mais difícil será para este senhor usar o seu corpo para tranquilizar o filho, que por vezes não está tão calmo assim. Faz-me pensar que a dedicação deste homem vê-se a léguas, pela forma como age e interage com o filho. Que certamente este jovem, ao contrário de muitos, estará a ser bem acompanhado e que há respeito pela sua condição, que tudo é feito para que ele tenha a melhor vida possível.

Claro que não posso garantir que tudo isto seja verdade, mas assim me parece. E assim espero que seja.

Hoje quase caiu aquela lágrima traiçoeira ao ver aquela comunicação tão especial. Principalmente porque vejo um senhor visivelmente cansado mas extremamente dedicado e cuja presença só emana amor.

É bonito de se ver ❤

 

A*

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